Temos de ser positivos, e temos de ver o melhor da vida, e podia ser pior, e há pessoas que estão pior, e tens onde viver, e tens o que comer.
Olha porra, mas sou eu que passo pelas coisas. Parece que hoje em dia não se pode fraquejar. Ninguém pode se queixar que o mundo reage como se tivéssemos uma doença contagiosa. Pois bem, não me queixo ao mundo, queixo-me aqui.
Do mesmo modo que quando dou gargalhadas, elas são minhas e ninguém me as rouba, as lágrimas, as insónias, as palpitações, o apetite em excesso ou a falta dele, a desorientação, o peso no estômago e as dores no peito também são minhas.
E que se lixe o ser positivo, porque eu já não consigo mais. Já fui positiva durante dois anos. Não é que em dois anos nada de bom tenha acontecido. Aconteceu. Mas ultimamente tirando uma única coisa na vida, nada mais me dá alento. Porque no último ano parece que tenho a obrigação de ficar feliz com coisas pequenas. É a mesma coisa que achar 1 cêntimo no chão e acharmos de devemos agradecer ao universo como se tivessemos ganho o euro-milhões. É assim que me sinto: a agradecer por restos, por esmolas.
Olha não ganho nada de jeito mas tenho que comer, que bom! Olha este mês não ganhei para os gastos, mas tenho onde viver, que bom! Tenho pessoas que gosto gravemente doentes, mas ainda não morreram, quem bom! Tenho pessoas me fazem mal, mas não é de propósito, que bom! Tive um acidente de carro sem reparação possível e um prejuízo enorme, mas não me aleijei, que bom! Vamos agradecer porque todas as coisas más que nos acontecem podiam ainda ser piores e não são! Que BOM!!!!!
Eu sei o que isto pode parecer. Pode parecer que me queixo, e que realmente as coisas podiam ser piores. Eu sei. Podiam, podiam mesmo! Eu não quero dizer que não me sinta "agradecida" pelas coisas boas que vou tendo. Mas eu tenho necessidade de explodir mesmo assim! Que isto não parece sorte. Porque em dois anos muita coisa já me aconteceu, porque em dois anos fui sempre positiva e pouco ou nada mudou. Porque em dois anos fui um pilar para mim e para os outros. Mas dois anos a viver assim deu cabo de mim.
Acho que fiz alergia a este sorriso falso colado na cara.
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