São quase sempre os dias em passa-me tudo pela cabeça, assombra-me a vontade de dizer tudo o que sinto e que nos outros dias todos do ano nem me lembro, por isso também não calo (como quem não lembra, simplesmente não diz, porque esqueceu).
É quase como se fossem os dias dos "abre-olhos". Os dias em que vejo com maior clareza quem palra muito e faz pouco. São os dias em que não arranjo desculpas para os deslizes de ninguém. Sim. Porque comigo ninguém precisa de inventar desculpas pelas suas más atitudes. Eu já faço isso por toda a gente. "Coitadinho, só fez isso porque anda muito ocupado com os estudos", "coitadinho só reagiu assim porque está muito longe", "coitadinho só fez assim porque a mãe o aconselhou assim", "coitadinho ninguém lhe ensinou melhor", "coitadinho o erro se calhar até foi meu, ele não tem culpa de ser assim", "coitadinho há sempre duas versões da mesma história", "coitadinho vamos dar o benefício da dúvida", "coitadinho se calhar eu tenho um modo de pensar e ele tem outra, e ninguém tem razão", "coitadinho se calhar estou a interpretar mal e é apenas um modo de defesa", e por aí em diante. E pode substituir-se o coitadinho por coitadinha e o ele por ela, que não existem excepções, e eu cá tenho os meus "eles" e os meus "elas".
Também podia ser chamado o dia do "farta". Em que todas as frases começam por "estou farta de...". E por norma são pessoas. São as pessoas que fartam e cansam. As atitudes, repetidas, sonsas, dúbias, pouco transparentes, indirectas. A falta de partilha, da vida, do tempo, do que acontece, do que aconteceu. A exclusão morna, demorada, previsível. O retrocesso, o ignorar, a dúvida, a não confiança, uma falta de resposta.
Também podia ser o dia do acordar. O dia em que acordo com a consciência que no resto do ano ou sou muito burra, ou muito ingénua. Sim, porque só um burro ou alguém muito ingénuo pode inventar tantas desculpas para os outros como eu, e so alguém nessas condições pode acreditar que essa pessoa nos tem algum tipo de sentimento.
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